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Escolha (in)certa

Como escrevi no último post, no final do ano passado surgiu a oportunidade de mudar de emprego. Trabalhava num hospital público a 40km de casa, há quase seis anos com um contrato estável. Sim, é talvez a situação laboral que muita gente anseia e pela qual luta há muito tempo mas deixem-me ser egoísta ao ponto de não estar satisfeita. Pela distância de casa, pelas viagens intermináveis, pelos gasto em gasóleo e manutenção, pelo cansaço acumulado, pelas horas roubadas à minha família. 

Em Setembro de 2016 concorri para um hospital a 20km de casa. Fui admitida ao concurso, fui seleccionada para entrevista mas a colocação não foi a que esperava, apesar de não ser má. Seria certamente chamada mas seria um processo mais demorado do que imaginara. Desanimei. Mas eis que, depois das semanas atribuladas de Dezembro, no dia 22, fui contactada para começar a trabalhar no dia 2 de Janeiro em regime de contrato de substituição.

Arrisquei. Troquei o certo pelo incerto na certeza de que amor nunca nos vai faltar. Troquei pelo meu filho, pela minha família. Até porque o que é certo hoje, amanhã deixa de ser. Os vínculos desfazem-se conforme as necessidades das empresas e o vínculo com o meu filho não tem preço, não tem comparação, é o único que nunca terá fim.

Embora esta precariedade contratual traga algumas limitações em termos de horário, acredito que os ganhos foram substanciais. Faço turnos de 12 horas e nesses dias estou muito pouco tempo com o G. acordado. Mas volto em 20 minutos para casa e enroscamo-nos os dois a dormir o resto da noite. Vai me roubar algumas noites de casa mas no dia seguinte fico com ele e aproveitamos o dia e as folgas a seguir à noite. Se o horário semanal for cumprido, trabalharei 3/4 dias por semana e folgo os restantes. Posso não ter emprego daqui a quatro meses mas, como já disse, acredito que quem muda, Deus ajuda e o meu empenho é que ditará um melhor ou pior futuro.

Acredito que começar o ano com uma mudança tão significativa tem que ser um presságio para um ano especial. E um ano especial tem que ser 'acomodado' e planeado numa agenda especial. E até isso aconteceu de uma forma inesperada.

No dia em que o G. teve alta ele dormia a sesta à espera que o pai nos viesse buscar para finalmente regressar a casa. E eu percorria o meu feed no facebook, onde surgiu um passatempo promovido pela Aroud the Story em que deveríamos enviar uma mensagem justificando o porquê de devermos ser os escolhidos para ser presenteados por ela com um presente da marca. O prazo terminara no dia anterior mas eu sentia-me tão feliz e positiva que decidi participar na mesma. E fui selecionada e presenteada com uma agenda amorosa para 'guardar' este que eu acredito que será O ano! 

Eu sei que fiz uma escolha que nem toda a gente entende. Numa altura em que se luta por um emprego estável eu abri mão do meu. Mas depois de ser mãe as nossas perspectivas mudam completamente e é o amor, este amor profundo e visceral que nos move, que nos impulsiona a fazer escolhas que outrora nos pareceriam completamente descabidas. Disseram-me que um dia o meu filho me agradeceria mas eu sei que não. E não é isso que quero. Eu é que agradeço as mudanças que dia a dia ele opera em mim. Ter-me feito crescer e lutar por aquilo em que acredito, de uma forma que nunca achei que seria capaz de lutar. 


Comentários

  1. Que tudo corra pelo melhor :)
    Bjinhosss
    https://matildeferreira.co.uk/

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  2. Ainda me lembro de ter falado contigo sobre isto... Eu compreendo o que escreves-te!...

    ResponderEliminar

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