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Eu gostava mas não posso...

Mesmo antes de ter filhos sempre disse que, se ganhasse o euromilhões, tinha logo uns quatro e ficava em casa a cuidar deles.

Saiu-me quase o euromilhões quando me nasceu o meu amor pequenino mas, infelizmente não posso ficar em casa a cuidar dele.

Tenho amigas que dizem não ter sido talhadas para serem mães a tempo inteiro. Que no terceiro mês de licença já estão pelos cabelos e ansiosas por voltar ao trabalho. Eu não. Eu trocava sem pensar duas vezes a minha carreira por isto.

Por o deixar acordar e vesti-lo sem pressa. Por brincar e cantar-lhe toda a manhã. Por lhe embalar as sestas e calar o choro no meu colo a qualquer hora. Por amamentar em livre demanda e não ter que lhe dar nunca leite congelado. Por passar a tarde na cozinha a fazer bolachas e o jantar. Por cuidar só dele e não ter que voltar a cuidar de mais ninguém que não os meus.

Quem me conhece sabe que sempre gostei do que faço. Sou enfermeira e escolhi sê-lo porque queria uma profissão onde pudesse ajudar o próximo. Tenho me dedicado a isso de alma e coração e a minha maior preocupação é deixar sempre algo de bom em quem cuido. Mesmo que seja a última coisa que faça pela pessoa.

Mas estou cansada (e só trabalho há 5 anos em ambiente hospitalar). Trabalhar nas condições que trabalhamos hoje em dia é desgastante. Segurar a mão de quem parte é desgastante. Apoiar os que ficam depois é desgastante. Chegar para as tarefas que deviam ser de mais um ou dois enfermeiros é desgastate. Fazer 80 km diários para trabalhar às vezes com menos de 8 horas de sono é desgastante.

E eu não queria viver os dias do meu filho desgastada. Chegar a casa cansada quase de noite e vê lo a correr. Não queria senti lo a crescer entre as minhas viagens e turnos. Não queria ter que o entregar aos cuidados de outra pessoa enquanto eu vou cuidar de estranhos. Está mal. Está tudo trocado.

Mas não posso abrir mão do meu trabalho até porque na realidade em que vivemos sou uma priveligiada. Tenho trabalho. E na realidade já me chegava só ter um horário dito normal. Sem tardes sem noites sem fins de semana.

Para já tenho que conviver com esta escolha. E tentar organizar-me (ah organização desce em mim pul'amor da santa) mas isso, isso dá pano para outro post.

Comentários

  1. Oh Sara, mais uma vez.. como te compreendo!
    Meu Deus.. isto está mesmo tudo trocado! E eu, como tu, trocava num piscar de olhos, num milésimo de segundo, num lusco-fusco, de posição. Ficava em casa com ele sempre, sem qualquer probleminha.. eu não me consigo fartar nem por 1s. Mesmo que haja dias cansativos, mesmo que a rotina por vezes possa cansar, mesmo que o estar em casa desgasta um pouco.. meu deus, tudo mas mesmo tudo isso é 10000 vezes melhor que outra coisa qualquer, pois estamos com eles ! Vemos cada coisinha nova que ele aprendeu e começou a fazer, damos-lhes mimos, fazemo-los rir, dançamos, cantamos, damos de comer com todo o amor e mais algum, passeamos, rimos, beijamos, abraçamos.. tudo é sempre melhor para nós e para eles!
    Eu não sou uma pessoa realizada profissionalmente como tu, apesar de te sentires, com razão, cansada de muitas situações inerentes ao teu trabalho. Mas foi uma profissão, como tu disseste, que tu escolheste. Abdicávas ainda assim, para mim, isso é uma grande demonstração de amor!
    Eu sei que mesmo tendo escolhido a minha profissão como tu, eu também abdicaria. Abdico agora porque não sou realizada, faço o meu trabalho bem feito, sou cumpridora, sinto-me bem quando o faço, mas não sou feliz no que faço. Mas mesmo que fosse, eu abdicaria, pois o que me faz mais feliz é isto, esta vida com ele. Posso estar a falar "de boca cheia", pois estou agora a viver isto, e depois vivo outras coisas e também gosto. Tal como uma amiga minha me diz.. sofria de ansiedade quando pensava em ir trabalhar e deixá-lo, mas depois quando foi, sofreu de início, mas até lhe soube bem.. e muitas pessoas o dizem.. até sabe bem depois.. termos a "nossa vida", aquela nova rotina, de ir trabalhar e ir buscá-lo À escola. Meu Deus, mais uma vez, eu nºao vejo nada de felicidade nisso.. posso estar cega por agora.. mas não vejo!
    Isto porque a nossa realidade actual é essa rotina ser sempre a correr, como tu bem disseste, Nós vemos os nossos filhos, oquê? 3/4h à noite?? Chegamos, fazemos tudo a correr e no dia seguir igual? O que tem bom nisso? Bom é ter tempo de qualidade com eles.. sem horários, sem pressas porque daqui a nada temos que ir dormir, ou fazer isto ou aquilo! Bom é eles poderem brincar sem timmings, ficamos ali a olharmo.nos nos olhos sem mais nada em que pensar. Eu sei que essa não é a realidade, mas é a realidade que eu também idealizava! E quando estamos grávidas não pensamos que isso vai acontecer.
    Eu vou regressar ao trabalho dentro de muito pouco tempo.. felizmente, sim, felizmente para mim, não o vou deixar em creche. Mas não consigo deixar de pensar que vamos perder estes momentos. Eu provavelmente ficarei desempregada na altura em que ele vai fazer 1 ano, e essa situação tanto tem de mau e preocupante, como para mim tem de bom e libertador!
    Somos mães duma era que vive num ritmo alucinante, e se antes vivíamos essa vida sem grandes problemas, agora repensamos tudo e colocamos tudo em dúvida.. é isto que queremos para os nossos filhos? Beijinhos

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