Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Planos suspensos

Às vezes acho que as pessoas duvidam de mim. Está na cara. Na expressão. No tom com que me respondem. Não as censuro. É difícil de acreditar que alguém, a dez dias do fim do mês, não tenha planos para o mês seguinte. Que a dez dias do fim do mês não possa confirmar presença num almoço de família. Não saiba o que vai fazer no dia da criança. Não consiga confirmar disponibilidade para fazer um bolo para o filho da amiga. Não saiba se vai á festa da escola do próprio filho. Ain da por cima às vezes com coisas marcadas, liga a dizer que afinal não dá. Que afinal trabalha. Que lhe deram mais um turno. Que estava de folga mas já não está. Eu sei. Não é fácil de acreditar. Mas acreditem que também não é fácil de viver. Uma vida em suspenso. Ver planos adiados, deixar amigos pendurados e encontros por marcar. E este desencontro cansa. E por saber disso, às vezes acabo por não marcar. Porque já sei que não vai dar. E não marcar é deixar de estar presente. É deixar de ser lembrado...

Hoje é um bom dia para te lembrares de ti, Mãe.

Demorei bastante a voltar a olhar por mim. Dois anos e meio mais propriamente. Prometi várias vezes que 'desta é que é', mas sucediam-se as razões, ou às vezes as desculpas, para não começar hoje, para não ser para já. A maior delas era, como em tudo, a falta de tempo. Os dias não esticam e a vida de quem trabalha por turnos é tudo menos fácil, é tudo menos organizada. Logo a seguir à falta de tempo vem a culpa e uma anda intimamente ligada à outra. Porque se já tenho tão pouco tempo para eles 'não posso' estar a tirar tempo para mim! Errado! E eu acabei por perceber isso sentada num gabinete médico, onde se tocou ao de leve em palavras como exaustão e Burnout e não foi preciso mais nada para me pôr a mexer. Ou melhor, eu já andava a mexer-me porque precisei de iniciar entretanto, tratamentos de fisioterapia, por causa dos meus entorses frequentes. O Fisiatra já me tinha dito que seriam cerca de vinte tratamentos mas que era fundamental manter uma actividade físic...

De quarto de bebé para quarto de rapazinho

No seguimento do meu post anterior, tem vindo a dar-se toda uma revolução cá em casa. Muito devagar, pormenores que se mudam dia-a-dia, mas cujo o intuito é melhorar o ambiente em que vivemos, para minimizar os sintomas alérgicos do Guilherme. Como também referi, fui procurar informação neste sentido, uma vez que, apesar de trabalhar na área, há sempre pormenores que nos escapam e dicas importantes a reter.  Tenho me focado num conjunto de medidas, em grande parte relacionadas com a limpeza e arejamento dos espaços. A minha preocupação tem sido, para já, em relação ao quarto dele e o espaço de dormir foi o primeiro a ser alvo de maior atenção. Pretendo ir progredindo para outros espaços da casa onde ele passa bastante tempo e onde também há grandes mudanças a fazer. Não é que a nossa casa seja muito problemática, mas tem as típicas carpetes de pelo alto, as mantas polares e as almofadas fofinhas. Coisas que temos que substituir ou investir numa limpeza mais profunda. Relativ...

Limpar por turnos

Como muitos já saberão, sou uma enfermeira que, se pudesse, ter-se-ia dedicado única e exclusivamente ao papel de mãe. Embora essa possibilidade não se tenha proporcionado, desde então que temos feito algumas mudanças e adaptações naquilo que era a nossa vida antes do Guilherme, sempre com o mesmo objectivo: mais tempo de qualidade em família. Continuo no entanto, a ser uma enfermeira, que agora também é mãe, mas que continua a trabalhar por turnos (na sua maioria de 12 horas), com todas as dificuldades que isso implica. A maior dificuldade que encontro neste nosso estilo de vida é manter-me organizada no que diz respeito, por exemplo, às questões da casa, além de ser praticamente impossível manter dias específicos para fazer determinadas tarefas. Outra coisa muito difícil de manter são as rotinas, sejam elas de que natureza forem. Cá em casa fazemos, no entanto, um esforço para manter aquelas que ao Guilherme dizem respeito, como horas de deitar e levantar, hora do banho e do jan...

Memória(s) curta

De Dezembro' Hoje ao fim do dia, depois de lhe dar banho e ele fugir, colocar o creme e ele fugir, vestir lhe o pijama e ter que correr atrás dele para vestir o robe, sequei lhe o cabelo aos pulos e passei lhe o pente de raspão. Ele correu para as escadas, o pai apanhou o e eu fiquei de joelhos na casa de banho, no mesmo sítio onde o penteei, com a sensação de que tinha corrido uma maratona. Suspirei alto e bom som um 'mas este miúdo não pára um segundo' a tempo de ouvir o pai gritar um ' está quieto um bocadinho filho!' Depois lembrei me que há precisamente um ano, poucas semanas depois de aprender a andar, ele ficou internado. Estava em repouso por falta de ar e confinado a uma caminha de grades. E que eu chorava todas as noites com medo que ele deixasse de saber andar. E que ansiava todos os dias por vê lo correr fora dali. Impressionante como a nossa memória é curta. Não pares filho. Nunca mais voltes a parar. Quando não conseguir correr atrás ...

Este caminho que eu escolhi

De Outubro' Às vezes arrependo-me de ser enfermeira. De ter escolhido este caminho. Porque mesmo que um dia o abandone a minha vida terá ficado marcada para sempre. Marcada pelas histórias que não escolhi conhecer, pelas famílias que não escolhi ver separadas, pelas dores que não escolhi ver espelhadas em olhares que guardo comigo. Marcada pelas lutas que não escolhi ajudar a travar, pelos sonhos que não esc olhi ver terminados, pelas mortes a que nunca escolheria assistir. E é assim. Ser enfermeiro é escolher apenas o início do caminho e aceitar, sem escolha, tudo o que nos aparecer pela frente. É ver, constantemente a memória invadida por estilhaços daquilo que não nos queremos lembrar. Por isso ser enfermeira marcou-me. Mudou-me. De uma maneira que eu não sei se queria. Ou talvez quisesse. Mas só porque também me mudou de forma a dar mais valor à vida, a viver cada dia como se pudesse ser o último. A ver na história dos outros um bocadinho da minha e a ten...

O colo cura tudo

De Outubro' Fui fazer noite. Eles deixaram me à porta do hospital. Abracei o, esmaguei o como faço sempre, enchi lhe as bochechas de beijos e disse lhe que ia ganhar tostão. Quando o larguei disse me 'até iogo mamã' com a calma de quem diz que vai correr tudo bem. Acho que o pior já passou. Que já percebeu que vá onde for, eu volto, sempre. Basta esperar. Descansa me senti lo outra vez assim. Tranquilo e seguro. Acreditem. O colo cura tudo. O colo e mergulhos no mar :)   ❥ Instagram ❥ Facebook